A ARTE DE ESTAR À MESA
“Em um banquete, escolher a parte maior das iguarias é adequado ao apetite corporal, mas totalmente indevido para o espírito social do banquete. Então lembre-se quando você comer em companhia de outra pessoa, não apenas do valor para o corpo dos pratos colocados diante de você, mas também o valor da cortesia adequada para com o seu anfitrião.”

“Em um banquete, não discuta como as pessoas devem comer, mas coma como se deve.”
A Arte de Viver – Epiteto
É impressionante como um homem com a envergadura e profundidade de Epiteto, cujo conhecimento e sabedoria atravessaram séculos até os dias atuais preocupou-se em deixar como legado a importância de saber se portar adequadamente à mesa.
Dito isso, não posso deixar de traçar um paralelo com a opinião rasa e equivocada de inúmeras pessoas, que atualmente, dizem que a etiqueta à mesa é algo de menor valia.

Será que se refinar e ter controle sobre uma necessidade fisiológica de se alimentar ou deixar-se levar por ela, não faz a menor diferença? Se assim fosse, poderíamos perfeitamente botar nossos rostos dentro da panela toda vez que fôssemos nos alimentar. Para quê pratos? Para quê talheres? Para quê travessas para colocar os alimentos? Para quê fazer do momento de se alimentar um ritual em família se podemos simplesmente sanar nossa fome como se bestiais fôssemos?
É esse mesmo pensamento grotesco que leva um homem a atender seu instinto fisiológico de procriação e cometer um crime, por exemplo. Nunca deixaremos de ser animais, o que nos diferencia dos animais que vivem na selva é o nosso poder de optar, de escolher por gestos de civilidade. De nada adianta a vantagem de sermos racionais, se não sobrepusermos a razão aos instintos. Então o que pode nos auxiliar a frear tais ímpetos para nos tornarmos seres mais evoluídos é exatamente a nossa capacidade de refinanciamento e lapidação. Será que agora é possível compreender o porquê um homem sábio como Epiteto e tantos outros (grandiosos como ele) se debruçaram sobre esse mesmo tema?

Preciso dizer que os exemplos que citei, nos dois últimos parágrafos, me foram dados por uma pessoa muito especial, trata-se do meu mentor Jair Marcatti. Não coloquei esses parágrafos entre aspas porque não usei exatamente suas palavras, mas usei suas ideias e linha de raciocínio. Outro ensinamento de grande valia, ética e elegância que me foi passado por ele é o de dar crédito a quem te passou conhecimento. Infelizmente, nos dias de hoje, há uma profusão de pessoas se apropriando de frases e ideias alheias como se fossem delas. Isso não é apenas antiético como também extremamente cafona. Esse comportamento merece cair em desuso o quanto antes.
Outra frase muito interessante sobre o tema que nos envolve hoje é: “A mesa ninguém mente”. Criada e proferida por Jair Marcatti e amplamente divulgada nas redes sociais. O que essa ideia nos revela é justamente a noção de que, quando estamos sentados à mesa, o impulso que precisa ser domado para que aja civilidade, delicadeza e cordialidade é o instinto de sobrevivência. Quando conseguimos deixar o pedaço mais saboroso para o outro, quando levamos os alimentos à boca com calma e leveza apesar da fome ou quando conseguimos conter o desejo de dar a próxima garfada sem descanso da primeira para poder conversar com quem está diante de nós, tudo isso, exige muito autocontrole. Para quem aprende desde cedo a ter essa consciência e domínio, não tem ideia da quantidade de ímpetos que precisam ser domados e alinhados para que aja naturalidade e leveza nessa contenção. E é por isso que essa frase é maravilhosa, porque a sabedoria e avaliação de todos esses elementos está contida nela. Se você não tiver autodomínio, o instinto de sobrevivência te trairá. Por esse motivo a mesa é um local de respeito e por isso é prudente escolher com sabedoria com quem dividi-la.

Ana Cecília Mamede
@consultoria_etiquetaacm
