O “Panorama das Estradas Vicinais no Brasil”, desenvolvido em parceria com o Grupo de Pesquisa e Extensão em Logística Agroindustrial da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-Log), traz números que impressionam: o país perde anualmente R$ 16,2 bilhões apenas em custos operacionais por manter essas vias em condições precárias.
“Investir em estradas vicinais garante o acesso da população aos alimentos, aumenta a competitividade do agro brasileiro e traz qualidade de vida para os produtores, trabalhadores e seus familiares que vivem no campo”, afirma Martins. “O investimento nessas vias é uma política pública essencial, que vai além do escoamento da produção agropecuária. É também instrumento para ampliar o acesso da população rural a serviços básicos de saúde e de educação.”
“Baseado nesse trabalho, vamos ver se a gente consegue mudar não esse Brasil de fachada, não esse Brasil da Faria Lima, mas esse Brasil que é o Brasil maior, onde está o maior número de habitantes: o Brasil rural”, Martins resume a questão com a simplicidade de quem viveu oito décadas no campo.

O país possui aproximadamente 2,2 milhões de quilômetros de estradas vicinais, distribuídas em 557 microrregiões. Para colocar em perspectiva: as rodovias pavimentadas somam 211 mil quilômetros no território nacional. Ou seja, existem dez vezes mais estradas vicinais do que rodovias asfaltadas. E por essas vias de terra passam, anualmente, cerca de 1,4 bilhão de toneladas de carga do agronegócio.
“Tudo que a gente produz passa pela estrada vicinal. Tudo que a gente usa no campo como insumo passa pela estrada vicinal”, explica Thiago Guilherme Péra, coordenador do Grupo de Pesquisa e Logística da Esalq-Log. “Esse é um impacto bastante importante. Por isso que muitas vezes ela tem sido negligenciada, mas ela é um elo extremamente importante da nossa cadeia.”
As estradas vicinais se dividem em dois tipos. As terciárias, com largura suficiente para dois veículos trafegarem em sentidos opostos, somam 367 mil quilômetros. Já as “não classificadas” — vias estreitas onde passa apenas um veículo por vez — chegam a 1,8 milhão de quilômetros, representando 84,5% do total. “A gente tem uma dependência gigantesca desse tipo de infraestrutura”, afirma Péra. “Nós temos dado atenção cada vez mais para as rodovias pavimentadas, mas tudo que a gente produz e tudo que a gente usa no campo depende dessas estradas vicinais.”
Para entender a extensão do problema, as equipes da CNA e da Esalq-Log percorreram mais de 1.200 quilômetros em oito microrregiões da Bahia, Goiás, Maranhão, Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Pará e Paraná. Foram ouvidas 150 pessoas, entre produtores rurais e gestores municipais de infraestrutura e agricultura. O diagnóstico é desolador: apenas 1% dos entrevistados considerou a infraestrutura vicinal como ótima. A maioria classificou as vias como ruins (35%), péssimas (30%) ou regulares (26%).
Thiago Guilherme Péra, coordenador do Grupo de Pesquisa e Logística da Esalq-Log“Buraco foi o principal problema identificado pelos agentes ao longo dessa realidade das regiões prioritárias”, relata Péra. A lista de mazelas inclui ainda ondulações, atoleiros e pontes danificadas ou de má qualidade. “Muitas vezes o produtor vai ter que colocar do próprio bolso, ajustar alguma coisa para conseguir fazer um mínimo de movimentação nas suas propriedades. Essa é a realidade de muitos produtores no Brasil hoje.”
As consequências vão além dos buracos e atoleiros. O sistema atual emite cerca de 3 milhões de toneladas de CO₂ por ano. A baixa qualidade das vias obriga os caminhões a trafegarem em velocidades reduzidas, consumindo mais combustível e gerando mais poluição. Com estradas em padrão superior, seria possível reduzir
